Título provisório - Isto é bom: o palhaço cantor Eduardo das Neves

 

Isto é bom: o palhaço cantor Eduardo das Neves



“Quem vê mulata bonita bater no chão com pezinho

No sapateado a nega mata o meu coraçãozinho." 

(De Xisto Bahia/ gravado por Eduardo das Neves em 1902)

 

Este artigo trata da atuação do palhaço cantor Eduardo das Neves na primeira gravadora de discos do Brasil, a Casa Edison. A partir deste material fonográfico pretendo discutir as contradições de uma país recém abolicionista diante do efervescente mercado musical do Rio de Janeiro no final do século XIX e início do XX.

Nesse período vivia-se um panorama conflitante em que a formação da indústria fonográfica caminhava em paralelo a um plano nacional civilizatório de políticas eugênicas para formação de uma “nova república”. Havia por parte da elite intelectual, o propósito de construir uma memória oficial e portanto, empreendiam esforços para apagar a memórias dos negros escravizados. Lutavam por uma arte europeia, mas ao mesmo tempo grupos populares com matrizes africanas ganhavam espaço e representatividade nos palcos do teatro musicado e na crescente indústria fonográfica.

A memória colonial era escancarada com a ascensão dos movimentos culturais miscigenados e com a crescente visibilidade de artistas negros. Desse embate entre múltiplas vontades, o palhaço cantor Eduardo das Neves com a marca de 219 fonogramas na Casa Edison representava um grupo que buscava eleger suas práticas artísticas, modos, costumes, músicas e dança.

Ele era um dos representantes da voz do povo negro e por meio de suas composições e interpretações colocava em pauta disputas econômicas e sociais. Os personagens que protagonizavam as canções eram crioulos, crioulas, morenas, mulatas, iaiás. Sua performance e gravações pioneira funcionavam como um mecanismo para ascensão social. E a indústria fonográfica e o circo-teatro abriam esse espaço de expressão.

Gilroy (2001) fala sobre a importância da música negra no movimento social pós-abolicionista. Aponta a música como um elemento fundamental da cultura política desde o período. Percebe-se então que a forte presença do Crioulo Dudu na crescente indústria fonográfica faz parte da ação de um grande grupo de negros do mundo, não só no Brasil.

Assim, a comicidade musical dos palhaços cantores negros era o resultado de cenário ambivalente e taxado por desigualdades sociais. Eduardo das Neves representa um fenômeno cultura popular que também atuava com e para as elites. De maneira dialética, ele dialogava com elementos interétnicos e de interclasses. Talvez por isso, foi um fenômeno capaz de lançar uma ideia de identidade brasileira possível de ser aceito por amplos setores da população que representasse uma comicidade e musicalidade com a “cara do Brasil”. Assim, me pergunto se a figura de palhaços cantores, como a do palhaço Eduardo da Neves, serviu para a construção dissimulada de uma ideia cordial de harmonia social.

 

Referências Bibliográficas:

GILROY, Paul. O atlântico negro: modernidade e dupla consciência. Editora 34, 2001.

PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. A cidade que dança: clubes e bailes negros no Rio de Janeiro (1881 – 1933). Campinas, SP: Editora da Unicamp: Rio de Janeiro, RJ: Ed UERJ, 2020.

MARTHA Abreu e CAROLINA Dantas. Monteiro Lopes e Eduardo das Neves : histórias não contadas da primeira república [livro eletrônico. – Niterói : Eduff, 2020. – 1,3Mb ; PDF. – (Coleção Personagens do pós-abolição: trajetórias, e sentidos de liberdade no Brasil republicano, v. 1)


Referências musicais:

Link com música de Eduardo das Neves: 

https://discografiabrasileira.com.br/artista/71/eduardo-das-neves

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