O rádio e a voz, em Jean Cocteau

Jean Cocteau foi um artista francês, da primeira metade do século XX, cuja obra, tangencia diversas formas artísticas, como o cinema, as artes plásticas e a poesia, além de ter escrito uma extensa obra teatral, na qual se destacam Antigone, e La machine infernale, ambas reescritas a partir da obra de Sófocles.

Além de reescrever as duas peças, Cocteau também desempenhou as tarefas de encenador e ator em ambas as montagens de estreia. Seu nome figura nas duas fichas técnicas como portador da “voz” ou “La Voix”, que representa a fusão entre o coro e Corifeu.


Muito pode ser dito sobre a presença cênica dessa voz:
- como ela concentra em uma única “voz”, a multiplicidade de vozes do coro;
- como se assemelha à voz do rádio, que, na primeira metade do século XX, representava uma grande evolução tecnológica, adentrando e preenchendo os lares, formando opiniões, além de substituir o coletivo do coro antigo – muitas vezes divergente entre si – pela unicidade de uma única e tirânica voz;
- como ela representa metaforicamente (e, no caso das estreias, literalmente) a opinião e presença em cena do escritor/encenador.

Na primeira intervenção da Voz em La machine infernale, ela faz uma narrativa a galope de toda a tragédia de Sófocles, pontuando-a com comentários sobre a obra de Sófocles.
As formulações presentes nesse monólogo sobre o mecanismo operado pelos deuses no contexto das tragédias são filosoficamente simples e diretas, além de expressar a motivação do autor para o título da obra, que nos leva, mais uma vez, a refletir sobre a chegada tecnológica do rádio, enquanto “máquina”, e porque não, máquina infernal, sob certo ponto de vista… 

Rubrica que precede toda a ação dramática da peça Antigone
“Le choeur et le coryphée se résument en une voix qui parle très haut et très vite comme si elle lisait un article de journal. Cette voix sort d’un trou, au centre du décor.” 
(Coro e corifeu se resumem a uma voz que fala muito alto e muito rápido, como se estivesse lendo um artigo de jornal. Esta voz sai de um buraco no centro da cena.)

Não lhe basta que seja apenas uma voz, sem corpo. Cocteau exige que seja uma voz, em volume alto e em tom veloz. 

Com essa rubrica, Cocteau recupera um conceito expresso na Poética de Aristóteles, mas muitas vezes pouco desenvolvido, segundo a professora Tereza Virgínia Ribeiro Barbosa, que afirma: 

Para Aristóteles, a tragédia é ‘spoudaios’, que sempre foi traduzido como “grave”, “sério”. Outra tradução possível, porém, é “rápido”. A tragédia é rápida, os diálogos são como uma competição ou uma batalha, dá-se e recebe-se rapidamente.
Esse elemento “novo” contribui, a meu ver, para a afirmação de que Cocteau conseguiu, como seu antecessor, captar a urgência da encenação, necessária à sua época e a seu lugar. O que se percebe, em geral, em relação às encenações modernas de tragédias antigas, é que as encenações são comumente arrastadas, lentas, tediosas e extremamente sérias. 

Em suas reescritas, Cocteau visa retirar da obra sua matéria morta, gasta pelo tempo, a fim de lapidar a joia que existe ali e fornecer ao público de sua época o mesmo frescor observado em Sófocles, quando das apresentações na Antiguidade. 

Deste modo, o texto ganha nova vida, nova utilidade pública e nova função social, e é sobre isso que pretendo escrever... este seria o resumo da minha proposta de artigo.


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